Por Mara Limonge*
Com o avanço das redes sociais, os influenciadores financeiros – ou “finfluencers” – têm facilitado o acesso a conteúdos sobre investimentos, ajudando o público em geral a compreender conceitos financeiros de forma mais simples. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já acompanha esse fenômeno há algum tempo, tendo inclusive encerrado em março deste ano, consulta pública que teve por objetivo receber manifestações sobre as opções regulatórias relacionadas às repercussões da atuação desses influenciadores sobre o mercado de capitais e eventuais aprimoramentos normativos.
À medida que as marcas investem cada vez mais nesses profissionais, os influenciadores ganham visibilidade, seguidores e, por consequência, um retorno financeiro crescente. Hoje, qualquer brasileiro com acesso à internet se depara com conteúdos desses influenciadores, que promovem produtos e serviços de forma direta e acessível, simplificando o entendimento sobre finanças no cotidiano.
Segundo pesquisa da Nielsen, o Brasil lidera o ranking mundial em número de influenciadores digitais no Instagram, com mais de 10,5 milhões de criadores que possuem ao menos mil seguidores, sendo que aproximadamente 500 mil deles têm mais de 10 mil seguidores. No YouTube e no TikTok, o País também se destaca, ocupando a terceira posição no ranking global. O relatório mais recente da Anbima aponta a presença de 534 influenciadores financeiros ativos, que, juntos, somam uma audiência de 208 milhões de seguidores. Esse número reflete o interesse crescente dos brasileiros por conteúdos financeiros, mas alerta para a necessidade de um acompanhamento criterioso.
O crescimento dos influenciadores de finanças tem sido impressionante. Como defensora da educação financeira, vejo aspectos benéficos desse impacto para a população. Os influenciadores traduzem de forma amigável o que, até então, os profissionais especialistas restringiam a público mais abastado. No entanto, sempre existirá aquele que fala com a propriedade de quem conhece, estudou, tem capacitação e responsabilidade ao tratar de investimentos, especialmente no mercado de ações.
Costumo fazer um paralelo com o exercício de determinadas profissões da área da saúde. Sua saúde financeira merece a mesma atenção de um profissional certificado e com credibilidade comprovada para isso. E, nesse caso, há o influenciador para te convencer a poupar e o que te dirá como e em quais ativos investir. É o “médico especialista” que definirá o tratamento.
Os finfluencers podem criar conteúdos educacionais sobre como poupar, bem como sobre as modalidades e produtos de investimentos, porém, apenas os analistas de valores mobiliários podem, profissionalmente, indicar qual ação tem potencial de valorização.
A tentação de atrair seguidores com promessas de lucro rápido não pode ser maior que a necessidade de ter preparação suficiente para atuação na recomendação específica de ativos mais complexos.
Quando o assunto é ensinar a poupar, quais os caminhos a percorrer e a quem procurar, sem dúvida, os influencers exercem um papel importantíssimo. Eles estão fazendo um ótimo trabalho e não podem comprometer a confiança do público e expor investidores menos experientes a riscos financeiros, muitas vezes irreversíveis.
Para manter a credibilidade, os influenciadores devem prezar pela transparência e pela educação responsável, evitando simplificações e recomendações que criem expectativas irreais sobre rendimentos. A popularização da informação não substitui a profundidade e a qualidade que a educação técnica proporciona, essenciais para decisões bem fundamentadas. A APIMEC Brasil acredita que, para que a democratização do acesso à informação financeira ocorra de forma responsável, é essencial que o investidor tenha acesso a conteúdos embasados, imparciais e livres de conflitos de interesse.
Além disso, a disseminação de informações técnicas requer atenção à transparência e à responsabilidade de quem as comunica. A Audiência Pública dos finfluencers, atualmente em fase de análise, visa justamente a proteger o investidor e assegurar que ele seja orientado por profissionais qualificados e comprometidos com a veracidade das informações. Como associação de profissionais de investimento, defendemos que a educação financeira de qualidade deve priorizar o rigor técnico e a ética.
Aos investidores que exploram esse universo digital, recomendamos cautela e discernimento. Busquem fontes confiáveis, avaliem as qualificações dos influenciadores que acompanham e, sempre que possível, procurem por profissionais e entidades que ofereçam suporte técnico para uma análise aprofundada e bem-informada do mercado.
A informação nas redes sociais é um excelente ponto de partida, mas é na educação técnica que o investidor encontra a base necessária para alcançar objetivos financeiros de forma responsável e sustentável.
*Mara Limonge é Vice Presidente da APIMEC Brasil e Coordenadora da Comissão de Mercado de Capitais, que contribuiu no âmbito da Audiência SDM nº 04/2023, juntamente com a Superintendência de Supervisão do Analista de Valores Mobiliários da APIMEC Brasil – SSA, que teve por objetivo receber manifestações sobre as opções regulatórias relacionadas às repercussões da atuação dos influenciadores digitais sobre o mercado de capitais e eventuais aprimoramentos normativos.